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Friedrich Wilhelm Nietzsche: Além do Bem e do Mal – Capítulo II – O Espírito Livre (Resumo)

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24. O homem vive em uma curiosa simplificação e falsificação, tornando tudo claro, livre, leve e simples. Demos passe livre aos nossos sentidos para tudo o que é superficial, e ao nosso pensamento um desejo de saltos caprichosos e pseudo-conclusões. Conseguiu-se manter a ignorância para gozar de liberdade, despreocupação – para gozar a vida. Foi sobre essa firme base de ignorância que a ciência até então assentou a vontade de saber sobre a base de uma vontade mais forte, a vontade de não-saber, de inverdade. Não como oposto, mas como refinamento. Apesar de a linguagem se limitar à sua rudeza, continuando a tratar de oposições com uma mínima gama de gradações; apesar da tartufice da moral, que hoje pertence a “nossa carne e nosso sangue”, distorcer palavras, percebemos e rimos da forma pela qual a melhor ciência busca prender-nos a essa simplificação e artificialidade, e de como ela ama o erro por amar a vida.

25. Aos filósofos “sérios”, Nietzsche recomenda: evite-se o sofrimento “pela verdade” e a defesa de si, pois assim se corrompe a inocência e a neutralidade da consciência, tornando-se duros para objeções e provocações; animalizando e embrutecendo na medida em que se luta contra a calúnia e a suspeita, ao mesmo tempo em que se defende a “verdade”, como se ela fosse uma criatura inepta e inofensiva que precisa de defensores. Não tem importância alguma ter razão, nenhum filósofo teve razão; uma interrogação colocada após as suas doutrinas favoritas pode ser mais “verdadeira” do que toda a defesa pela verdade. Fujam e escolham a boa solidão; solidão livre, animosa e leve para que continuem bons em algum sentido. Toda guerra longa que não é conduzida com franca violência torna o indivíduo venenoso, astucioso e mau; um longo olhar e temor em direção aos inimigos tornam-se pessoal. Homens longamente perseguidos, como Spinoza e Giordano Bruno, acabam se transformando em refinados vingativos e envenenadores; a estupidez da indignação moral num filósofo é sinal de que o humor filosófico o abandonou. O martírio do filósofo pela verdade aflora o ator e agitador que nele se esconde; é compreensível que se deseje ver os filósofos em degeneração (degenerados em mártires). Quem desejar vê-los como mártires deve saber que verá apenas uma comédia satírica, uma farsa final, a demonstração de que a longa tragédia chegou ao fim: pressupondo que toda a filosofia foi, em sua gênese, uma longa tragédia.

26. Todo homem seleto procura seu castelo para se distanciar da multidão, para se esquecer da regra “homem” enquanto se vê como exceção, exceto quando é impelido à regra pelo instinto do homem do conhecimento. Aquele que não se enrubesce ao percorrer as aflições, nojo, compaixão, isolamento e tristeza no trato com os homens não tem gosto elevado; se ele não assume voluntariamente esse fardo e desgosto, esquivando-se em seu castelo, não foi feito para o conhecimento. Se fosse, deveria dizer “ao diabo com o bom gosto! A regra é mais interessante que eu, a exceção”. O estudo do homem médio, sério e prolongado, exige dissimulação, familiaridade, má companhia: é parte necessária no currículo do filósofo, a mais desagradável e rica em decepções. Mas se ele tem sorte, depara com facilitadores de sua tarefa: os cínicos, que reconhecem em si o animal, o vulgar e a “regra”, mas possuem espiritualidade que os obrigam a falar de si e dos seus iguais aos outros ou em livros. Almas vulgares se aproximam da honestidade unicamente pelo cinismo, e o homem superior deverá ter ouvidos atentos para todo cinismo dos bufões sem pudor e sátiros da ciência. Em alguns casos o fascínio se mistura ao nojo: quando o gênio é associado a um desses macacos indiscretos, como o Galiani, o mais profundo, penetrante e sujo homem do século. Ainda ocorre que uma cabeça científica, uma inteligência, se encontre em um corpo de símio, numa alma vulgar – como os médicos e fisiólogos da moral. Deve-se ter ouvidos para quem fala do homem, inofensivamente e sem indignação, como uma barriga de duas necessidades e uma cabeça de uma – fome, desejo sexual e vaidade, únicos móveis das ações humanas. O homem indignado, que dilacera a si, a deus e a sociedade pode ser moralmente superior ao sátiro, mas é o caso mais comum e menos instrutivo, e ninguém mente mais que um indignado.

27. É difícil ser compreendido quando se pensa no ritmo de Ganges entre homens que pensam no ritmo de tartaruga. No que toca aos “bons amigos”, sempre indolentes, deve-se conceder-lhes uma margem para a incompreensão: assim teremos motivo para rir, ou afastá-los e rir também!

28. O mais difícil de se traduzir em uma língua é o tempo do seu estilo, que se origina no caráter da raça, no tempo médio de seu metabolismo. Há traduções honestas que resultam quase em falsificações involuntárias do original, apenas pela impossibilidade de se traduzir seu tempo ousado e alegre, que deixa para trás o que é perigoso nas palavras e coisas. A língua alemã é incapaz do presto, e, por conseguinte, incapaz de muitas nuances temerárias e deliciosas do pensamento livre, próprio de espíritos livres. Aristófanes e Petrônio são intraduzíveis. Gêneros prolixos e monótonos de estilo – grave, arrastado e solenemente canhestro – se desenvolveram em rica variedade entre os alemães. Mesmo Goethe não constitui exceção, por ser um reflexo dos “velhos bons tempos” a que pertence e por ser expressão de um gosto alemão que então havia: gosto rococó nos costumes e nas artes. Lessing, que era tradutor de Bayle, é uma exceção: por sua natureza de ator muito compreendia e em muita coisa era versado, e de bom grado se refugiava junto à Voltaire, Diderot e aos criadores da comédia romana: no tempo de Lessing se amava o livre-pensar, a fuga da Alemanha. A língua alemã, mesmo na prosa de um Lessing, só consegue imitar o tempo de Maquiavel, com ares de Florença e a exposição de assuntos sérios em indomável alegrismo, através de maliciosa percepção artística do contraste que ousa: pensamentos difíceis, longos, duros, perigosos e um tempo galopante e do bom humor caprichoso. Quem arriscaria uma tradução de Petrônio, que foi um gênio do presto, da invenção, inspiração, palavra – que importam os pântanos de um mundo enfermo quando se tem com ele o escárnio libertador de um vento que faz tudo saudável, ao fazer tudo correr! E sobre Aristófanes, espírito transfigurador e complementar, foi um livro seu encontrado sob o travesseiro do leito de morte de Platão.

29. Independência é algo para poucos, prerrogativa dos fortes. Quem busca ser independente ser se obrigar a isso, é mais que forte: é temerário. Penetra-se num labirinto, multiplica os perigos da vida; dos quais destaca-se que ninguém pode ver onde e como se extravia, isola e é despedaçado pela consciência. Se alguém assim desaparece, ocorrerá longe do entendimento dos homens, sem sentir nem compadecer: e ele não pode voltar!

30. As mais altas intuições parecem bobagens ou delitos para aqueles que não são feitos ou predestinados a elas. Entre indianos, gregos, persas e muçulmanos, em toda parte em que se acreditava em hierarquia e não em igualdade, o que diferenciava o exotérico e esotérico, como os filósofos distinguiam-se outrora, era o fato de que este vê e julga a partir de cima e aquele por baixo – e não pelo fato do exotérico ficar de fora. Há alturas de alma em que a tragédia deixa de ser trágica; e se todas as dores do mundo fossem unidas numa só, quem ousaria dizer que isso nos obrigaria à compaixão, e desse modo duplicar a dor? O que é alimento para o homem superior é veneno para um tipo diverso e menor. Talvez as virtudes do homem vulgar significassem fraqueza e vício num filósofo. É possível que apenas ao sucumbir, um homem de alta linhagem viesse a ser venerado e santificado no mundo ao qual desceu. Há livros que tem valor inverso para a alma e saúde, dependendo que quem os lê. Livros de todo mundo têm odor de gente pequena; onde o povo come, bebe e venera o ar costuma feder. Não se deve ir à igreja em busca de ar puro.

31. Na juventude se venera e despreza sem a arte da nuance – a melhor aquisição na vida – e se paga caro por atacar coisas e pessoas com Sins e Nãos. Tudo se encontra disposto de forma que o gosto pelo incondicional – o pior dos gostos – seja abusado até que se aprenda a pôr arte nos sentimentos e arriscar na tentativa do artificial: como os verdadeiros artistas da vida. A ira e irreverência, próprias da juventude, não descansam enquanto não falsearem pessoas e coisas de maneira que possam nelas se desafogar: a juventude é algo que falseia e engana. Posteriormente, quando a alma jovem, martirizada por desilusões, finalmente desconfia de si mesma, ainda ardente e selvagem, se enraivece e se dilacera como por vingança de sua prolongada auto-obcecação, como se fosse uma cegueira voluntária. Nessa transição nos castigamos ao suspeitar do próprio sentimento; torturamos o entusiasmo com a dúvida, tomamos partido contra a juventude. Depois de dez anos compreendemos que tudo isso ainda era juventude!

32. Durante a pré-história, a valoração de uma ação era deduzida de suas conseqüências: não da ação em si ou suas origens, mas, semelhante ao que ainda ocorre na China – onde a distinção ou desgraça do filho recai sobre os pais –, era a força retroativa do sucesso ou fracasso que valoravam uma ação. Chame-se esse período de pré-moral da humanidade. Nos últimos milênios, contudo, chegou-se ao ponto em que é a origem da ação que determina seu valor: um refinamento do olhar e da medida, a repercussão inconsciente de valores aristocráticos e da crença na “origem”, a marca de um período que se pode denominar moral strictu sensu: fez-se a primeira tentativa de autoconhecimento. Uma inversão de perspectiva: ao invés da conseqüência, a origem. Com isso uma nova e fatal superstição, uma estreiteza de interpretação tornou-se dominante: a origem de uma ação foi interpretada, no sentido mais determinado, como origem a partir de uma intenção; concordou-se que o valor de uma ação é o valor da intenção. A intenção como origem da ação: com esse preconceito é que até então se louvou, condenou e se filosofou moralmente. Mas já alcançamos a necessidade uma nova inversão e deslocamento de valores, graças ao auto-escrutínio e aprofundamento do homem; estaríamos no limiar de um período extramoral: agora que entre os imoralistas corre a suspeita de que o valor de uma ação está naquilo que nela é não-intencional, e que sua intencionalidade, o que nela pode ser visto, pertence ainda à superfície, que ao tempo que revela esconde algo. Acreditamos que a intenção é apenas um sintoma que exige primeiro a interpretação, um sinal que, por significar muitas coisas, nada significa por si, – que a moral das intenções foi um preconceito, algo provisório, algo da mesma ordem da astrologia e alquimia, algo a ser superado. A superação da moral poderia ser o nome para o trabalho que ficou reservado para as mais finas, honestas e maliciosas consciências atuais.

33. É preciso questionar os sentimentos de abnegação, sacrifício em favor do próximo, a moral da renúncia de si, bem como a “contemplação desinteressada” com a qual a emasculação da arte procura criar uma consciência tranquila. Há encanto e açúcar demais nesses sentimentos para que não se desconfie deles: não seriam seduções? O fato de agradarem quem tem, quem goza dos seus frutos e os meros expectadores não é argumento em favor deles, mas um convite à cautela.

34. O caráter errôneo do mundo em que acreditamos viver é a coisa mais segura que se pode apreender: encontramos razões que nos induzem sobre um enganador princípio na “essência das coisas”. Mas quem responsabiliza nosso próprio pensar, “o espírito”, pela falsidade do mundo – uma fuga, a que recorre todo advogado de Deus consciente ou não: quem considera esse mundo, espaço, tempo, forma, movimento como falsa conclusão: esse alguém teria um bom motivo para suspeitar enfim de todo o pensamento: não teria ele nos pregado a maior peça? E ele ainda nos prega peça? A inocência dos pensadores tem algo que inspira relevância, que lhes permite pedir à consciência respostas honestas para certas questões: se ela (a consciência) é real; porquê mantém o mundo exterior à distância; etc. A crença em “certezas imediatas” é uma ingenuidade moral que honra os filósofos, mas não devemos ser homens “apenas morais”. Na vida civil, a suspeita sempre alerta é indício de “mau caráter”, falta de bom senso: além do mundo civil e seus Sins e Nãos, o filósofo tem direito ao “mau caráter”, o dever da desconfiança. Se deve avaliar de outra maneira o enganar e o ser enganado – e alguns filósofos resistem a ser enganados. Por que não? Dizer que a verdade ter mais valor que a aparência é um preconceito moral. Não existiria nenhuma vida sem a base em avaliações e aparências perspectivas; se alguém quisesse abolir o “mundo aparente”, aboliria também a sua “verdade”. Sim, pois o que nos obriga a uma oposição entre verdadeiro e falso? Não basta a suposição de tonalidades do aparente, mais claras ou escuras, diferentes valores? Não poderia o mundo que nos concerne ser uma ficção? Mas a ficção não requer um autor? Esse “requer” também não seria ficção? O filósofo não poderia se erguer acima da credulidade na gramática? Não seria tempo de a filosofia abjurar da fé naqueles que ensinam gramática?

35. A busca pela verdade é difícil; se o homem se porta humanamente demais – buscar a verdade para fazer o bem – ele nada encontra.

36. Se nada fosse “dado” como real, exceto nossos desejos e paixões, nossos impulsos – pois pensar é a relação entre os impulsos: isso que é dado não bastaria para compreender também o mundo mecânico, material? Não como uma ilusão, aparência ou representação, mas na mesma ordem de realidade dos nossos afetos, uma forma primitiva do mundo dos afetos, na qual esteja encerrado em uma unidade tudo o que se ramifica, se configura e se debilita no processo orgânico, uma espécie de vida instintiva em que todas as funções orgânicas, como auto-regulação, assimilação, nutrição, eliminação se acham ligadas umas às outras – uma forma prévia de vida? Esse raciocínio não é apenas lícito, mas algo imposto pela consciência do método. Uma moral do método, a qual não se pode subtrair é aquela de não admitir várias espécies de causalidade quanto não se chega a uma só. Se reconhecemos a vontade como atuante, na causalidade da vontade – a crença nisso é a crença na causalidade mesma –, temos então que ver a causalidade da vontade como única. Vontade só pode atuar sobre vontade e não sobre “matéria”: é preciso arriscar a tese de que onde se reconhecem efeitos, vontade atua sobre vontade – e de que todo acontecer mecânico, na medida em que nele age uma força, é força de vontade, efeito da vontade – a vontade de poder; se fossem reconduzidas todas as funções orgânicas a essa vontade de poder, se obteria o direito de definir toda força atuante como vontade de poder. O mundo visto de dentro, definido de acordo o seu “caráter inteligível” – seria justamente “vontade de poder”.

38. Como ocorreu com a revolução francesa, essa farsa desnecessária, na qual espectadores nobres e entusiastas interpretaram à distância suas próprias indignações, por tanto tempo e paixão que o texto desapareceu sob a interpretação: também uma posteridade poderia mal-entender o passado inteiro e assim torná-lo suportável. Mas isso ocorreu conosco, e acabou precisamente quando o percebemos.

39. Apenas os idealistas pelo belo, bom e verdadeiro tomam por verdadeira uma doutrina apenas porque ela o torna feliz ou virtuoso. Felicidade e virtude não são argumentos. Mas tornar infeliz ou mau também não são contra-argumentos. Algo pode ser verdadeiro, apesar de nocivo; pode ser da própria existência o fato de alguém se destruir ao conhecê-la – de modo que a fortaleza de um espírito se mediria pelo quando de “verdade” suporta, pelo grau de diluição e falseamento da verdade. Para a descoberta de determinadas partes da verdade os maus e infelizes são favorecidos. Para o surgimento do espírito forte e independente talvez a dureza e astúcia sejam mais favoráveis que a suave, fina disposição, a arte de aceitar as coisas com leveza, que é apreciada num filósofo. Pressupondo que o conceito de filósofo não seja restrito ao filósofo que apenas escreve livros. Stendhal contribuiu para a imagem do filósofo de espírito livre, indo de encontro ao gosto alemão: “Para ser bom filósofo é preciso ser claro, seco, sem ilusão. Um banqueiro bem-sucedido tem parte da capacidade de um bom filósofo: de ver claro naquilo que é”.

40. O que é profundo ama a máscara; odeia a imagem e semelhança. O oposto é o disfarce adequado para que o pudor de um deus se apresente. Há eventos tão delicados que faríamos bem em enterrá-los através de grosserias. Há atos de amor e grandeza que deveríamos surrar as testemunhas para que não se lembrem. Alguns conseguem turvar a própria memória para vingar-se dessa cúmplice – o pudor é criativo. Não são as coisas ruins que mais nos envergonha, que deixamos por trás da máscara – há muita bondade na astúcia. Um homem que tenha algo precioso e frágil para esconder, rolaria tosco e redondo pela vida, como um tonel fortemente guarnecido, como deseja seu pudor. Um homem cujo pudor é profundo encontra seus destinos e decisões em caminhos que poucos alcançam, que mesmo os mais íntimos nem imaginam existir: seu perigo e sua reconquistada certeza de vida se ocultam aos olhos alheios. Esse homem oculto, que usa a fala para calar e guardar, incansável em esquivar-se à comunicação, deseja que uma máscara ande em seu lugar, nos corações e mentes dos amigos; e assim ocorre, mesmo que não deseje. Todo espírito profundo necessita de uma máscara, que cresce continuamente ao redor dele graças à interpretação falsa, rasa, de cada palavra e sinal de vida que ele dá.

41. É preciso testar a si mesmo, dar-se provas de ser destinado á independência e mando, no tempo justo. Um jogo perigoso, do qual somos as únicas testemunhas e juízes. Não se prender a uma pessoa – toda pessoa é uma prisão. Não se prender a uma pátria. Não se prender a uma compaixão. Não se prender a uma ciência. Não se prender ao próprio desligamento. Não se prender às próprias virtudes, vítimas de uma particularidade: o perigo das almas superiores, que tratam de si mesmas prodigamente, exercitando a liberdade ao ponto de torná-la vício. É preciso saber preservar-se: a mais dura prova de independência.

42. Está a surgir uma nova espécie de filósofo. É da sua natureza querer continuar sendo enigmas em algum ponto – esses filósofos do futuro poderiam ser chamados de tentadores: essa denominação mesma é uma tentativa, uma tentação.

43. Talvez os filósofos vindouros serão os novos amigos da “verdade”, pois todos os filósofos amaram suas verdades. Mas não serão dogmáticos: seria uma ofensa ao orgulho se a sua verdade fosse verdade para todos, como buscaram os dogmáticos. Diriam “meu juízo é meu juízo”, os novos filósofos. É preciso livrar-se do mau gosto de estar de acordo com muitos. “Bem” não é mais bem, quando dito pelo vizinho. Como haveria então um “bem comum”? O que pode ser comum sempre terá pouco valor. Será como sempre foi: as grandes coisas para os grandes, os abismos para os profundos, as branduras e tremores para os sutis e as coisas raras para os raros.

44. Esses filósofos do futuro serão espíritos muito livres. Mas deve-se varrer para longe um tolo equivoco e preconceito que obscureceu o conceito de “espírito livre”. Há quem abuse desse nome, na Europa e América: uma espécie de gente limitada, prisioneira e agrilhoada, o oposto daquilo que está em nosso intento. São os niveladores, os que falsamente se chamam de “espíritos livres” – escravos do gosto democrático com suas “idéias modernas”; homens sem solidão própria, rapazes bonzinhos de coragem e costume respeitáveis, porém superficiais, sobretudo na tendência de ver, nas formas da velha sociedade até então existente, a causa de toda a miséria e falência humana, colocando a verdade de cabeça para baixo. Eles querem perseguir é a universal felicidade do rebanho em pasto verde, com segurança; suas duas doutrinas mais lembradas são “igualdade de direitos” e “compaixão pelos que sofrem” – o sofrimento visto como algo a ser abolido. Nós, os avessos, que percebemos a questão de onde e como a planta “homem” mais cresceu, acreditamos que isso ocorreu em condições opostas, em situações extremamente perigosas, sua força de invenção e dissimulação tinha de converter-se, sob pressão e coerção, em algo fino e temerário, sua vontade de vida tinha de ser exarcebada até se tornar vontade de poder – acreditamos que dureza, violência, escravidão, perigo, ocultamento, estoicismo, arte da tentação, tudo o que há de mau serve tão bem á elevação da espécie “homem” quanto o seu contrário – nos achamos na outra extremidade da ideologia e aspiração do rebanho: como antípodas. Como admirar que nós, espíritos livres, não sejamos os mais comunicativos? Que não desejamos revelar do que um espírito pode se liberar e para onde ele é impelido? No que diz respeito à perigosa fórmula “além do bem e do mal”, com que evitamos ser confundidos com outros: somos algo diverso de “livres pensadores”, esses defensores das “idéias modernas”. Habitantes de muitos países do espírito, escapando aos buracos úmidos e agradáveis a que nos pareciam confiar a predileção ou pré-aversão, a juventude, a origem, a fadiga das andanças. Tal espécie de homem somos nós, espíritos livres. Seriam assim também os novos filósofos?

Comentários

Há um comentário sobre “Friedrich Wilhelm Nietzsche: Além do Bem e do Mal – Capítulo II – O Espírito Livre (Resumo)

  1. Ramon disse:

    Nietzsche era o cara!

    Raramente tenho em mãos um livro que possui um ar tão sincero e com opiniões tão livres de falsificações morais quanto os livros de Nietzche.

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