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Glenn Gould – A State of Wonder: The Complete Goldberg Variations (Johann Sebastian Bach)

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Na música clássica, a possibilidade do intérprete fazer o seu nome se destacar ao ponto de se tornar tão simbólico quanto o da composição e do compositor que interpreta não é tarefa das mais fáceis. Fala-se sobre Vivaldi e As Quatro Estações como se se tratasse de Machado e Dom Casmurro, acabando por ignorar o grande maestro, o acompanhamento impecável da orquestra e ou virtuosismo dos solistas.

Esta comparação entre literatura e música é necessária para que se perceba a seguinte particularidade: enquanto a primeira coloca o autor e o leitor em uma rota de informação de apenas dois pontos, a segunda possui um ponto intermediário de processamento, que é a sua execução. O leitor tem em mãos exatamente aquilo que foi escrito pelo autor, mas ouvinte não pode ter tanta certeza sobre aquilo que percebe em sua audição. De forma objetiva, a execução é o resultado de um processo que parte da leitura e interpretação da partitura, envolvendo a qualidade dos músicos, instrumentos, ambiente e variáveis técnicas. Por mais que se busque pela fidelidade da partitura, cada execução será ímpar.

Nos raros casos nos quais a execução é tão magnífica que o nome do músico ou maestro se torna sinônimo da obra, ainda assim cada qual continuará a possuir uma vida sem o outro, independente. Excepcionais, no entanto, são os episódios em que o talento do intérprete tem um papel fundamental e conclusivo em uma obra, como se fizesse uma nova composição, como foi o caso do pianista canadense Glenn Gould e das Variações de Goldberg.

“Glenn Gould – A State of Wonder – The Complete Goldberg Variations”, lançado pela Sony em 2002, traz duas gravações das Variações de Goldberg executadas por Gould em dois momentos e interpretações distintas. Publicadas em 1741 como o quarto volume da série Clavier-Übung (“Prática do Cravo”), as Variações de Goldberg ficaram assim conhecidas por terem sido cedidas por Bach ao cravista Johann Gottlieb Goldberg, para que as executassem em uma apresentação que faria ao conde Hermann Karl von Keyserling, ex-embaixador russo na corte eleitoral da Saxônia.

Esta obra escrita para cravo de dois manuais (teclados) inicia-se com uma ária da qual se desenvolvem trinta variações. As variações não acompanham a melodia da ária, como uma legítima variação. Antes, pois, seguem apenas as linhas do baixo e a progressão de acordes. Além de não serem variações propriamente ditas, exigem técnica e vigor do músico que acaba por se ver envolvido em um tedioso e árido exercício mecânico. Comparadas às composições épicas do mesmo autor, como o Concerto de Brandenburg e a Missa em B menor, as Variações de Goldberg aparentemente não guardam qualquer semelhança. Não seria equívoco imaginar que se não fosse escrita por Bach, já estaria consumida pelo esquecimento.

No entanto, as interpretações que Glenn Gould faz desta peça parecem a completar como se nunca fora completa. Gould transborda e vai além da partitura e cria emoção onde não havia. Pode a obra ter sido escrita por Bach, e também pode ter recebido este nome em homenagem àquele que, hipoteticamente, foi o primeiro a executar. O que mais a identifica, no entanto, é o nome Glenn Gould.

O primeiro disco, de 1955, é a gravação que o tornou conhecido e seu primeiro grande trabalho. Nele se vê um Gould vigoroso, impetuoso e capaz de apresentar a obra de Bach como não se havia imaginado. Gould rejeitou a interpretação romântica pela qual a obra até então era apresentada ao ponto em que Wanda Landowska lhe disse que ele tocava de um jeito pessoal enquanto ela tocaria do jeito de Bach.

O segundo disco, gravado em 1981, 26 anos após o primeiro e apenas 4 meses antes de sua morte, é uma rara oportunidade de se observar o seu gênio comedido, em uma execução lenta, contemplativa, na qual parece sentir nota a nota. Para que se tenha idéia da diferença de suas interpretações, a primeira gravação apresenta a ária e as variações em 38m11s, enquanto na segunda gravação o mesmo trabalho é feito em 51m10s.

Duas obras magníficas, cada uma ao seu jeito.

Glenn Gould – The Goldberg Variations – Parte 1

Glenn Gould – The Goldberg Variations – Parte 2

Glenn Gould – The Goldberg Variations – Parte 3

Glenn Gould – The Goldberg Variations – Parte 4

Glenn Gould – The Goldberg Variations – Parte 5

Glenn Gould – The Goldberg Variations – Parte 6

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